O título deste texto é um desafio pra mim até hoje, não pense que é uma batalha vencida.
Pensei nisso há pouco tempo, quando descobri que não gosto do trabalho que faço. Que direito tenho eu de falar de um emprego que muitos brigariam pra ter? Quantas pessoas tem empregos muito piores do que o meu, e os fazem felizes? Quantos nem tem emprego?
E a lista do que não aceito em mim não termina no trabalho não, ela se estende pelo lado pessoal, afetivo, fraterno, e por onde eu puder achar que poderia ter feito melhor, porque não posso me dar ao luxo de cometer os erros alheios que me fazem sofrer. Ou seja: me cobro ser perfeito. O único e maior problema foi olhar pro lado em que julgava o próximo, e esquecer de olhar o meu, ou o que minhas atitudes causaram a mim mesmo e consequentemente aos que tanto quis agradar.
Descobrir, ou melhor, resolver assumir que sempre me escondi atrás da pele "do cara que nunca quis arrumar problemas" foi estufar o peito e admitir que nessas ocasiões eu na verdade tinha medo de ser eu e saber qual seriam as consequências com as pessoas. Admito que encarar esse medo é uma meditação de todo os dias, e agora que assumi, não consigo mais justificar as mentiras. Resolver ser eu mesmo me trouxe várias descobertas, principalmente no que diz respeito ao meu círculo de amigos: ou eles realmente gostam do que eu sou, seja lá o que eu for, ou não são meus amigos, mas sim do cara que sempre foi um "sofá confortável", como diria minha amiga Flavica.
Vejo, por exemplo, meu irmão. Nesse ponto, sempre foi uma pessoa admirável, confiante do que quis, sonhando e lutando pelos seus objetivos, mesmo que esses durassem 10 minutos. Ele é livre dos outros, não está realmente nem aí; mas como tudo tem dois lados, um leve escorregão nessa qualidade e ela se torna um defeito que chamamos de falta de consideração.
Dizer o que quer não significa do jeito que quer; posso expressar minha opinião sem que precise ofender quem a pede, a não ser que essa seja a intenção, porque tem horas que só assim mesmo.
Hoje, não me sinto culpado de não gostar do meu trabalho: menosprezar a grandiosidade do que alguns diriam ser meu papel naquela empresa é pra mim ter a certeza de não deixar de ter sido um sonhador, e querer buscar o que tanto pensei em fazer; não gostar de algumas pessoas do trabalho me faz lembrar que elas são quem são, como estou aprendendo a ser, mas me lembra que nem sempre vou ser aceito, e gritar e destratar os outros não vai me ajudar; minhas futuras companias afetivas descobrirão quem sou, junto comigo e eu descobrirei se elas gostam ou não.
Não sairei por aí dizendo o que bem penso das coisas, mas quando perguntarem; quando não expressar o que penso diante de algo que não concordo, será porque nem sempre terei o direito de intervir, como ninguém tem esse direito.
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
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