A imagem que tenho comigo neste exato momento é dos famosos posteres de hospital, hoje não mais encontrados, onde aquelas enfermeiras sinalizavam a necessidade de silêncio.
E foi isso que fiz hoje ao descer do ônibus a caminho de casa: desliguei o diskman, e deixe que o turbilhão de pensamentos, idéias e questionamentos tomassem vez, e assim os organizando em fila, dando a cada um deles um tempo razoável para que pudesse analisar a importância e relevância de cada um deles.
Depois de alguns minutos praticando meu exercício, me dei conta da calma que me tomava gradativamente, do silêncio e da paz que tanto precisava: a música, que eu já não conseguia ouvir, criava uma concorrência com os pensamentos, que também ficavam inconclusos.
Acho engraçado o quão temerosas são as pessoas diante do silêncio, e tomo meu trabalho como um ambiente de exemplo: as pessoas não sabem que reação tomar, que atitude esperar de uma pessoa que vive brincando e falando, mas que um dia chega completamente muda e restrita a dizer o essencial. Como eu sempre disse, qualquer relacionamento é forte baseado no convívio com o silêncio, e este nada mais é do que uma necessidade de alguém que precisa se ouvir, se organizar, se responder; elas costumam levar o silêncio como algo pessoal, como uma queda de ibope, uma opinião negativa ou um tipo de insatisfação por parte do detentor.
Eu na sala lendo um livro, um romance ou qualquer outro gênero qualquer de livro que não seja trabalho, deitado, ou melhor, esparramado no puff, concentrado; ela, deitada no sofá com as pernas esparramadas pelo braço, lendo uma revista, muito mais atenta nas figuras, lendo um comentário ou outro sobre os lugares, imaginando como será viajar por eles. Nenhum dos dois pronuncia um suspiro sequer, entregues às suas diversões, esquecidos do mundo, num paradoxo de estarem tão perto e tão longe ao mesmo tempo, distraídos.
Por anos imaginei esta cena de intimidade de um casal, que parece surreal pra mim, porque poucos são os que sabem respeitar o silêncio alheio, e nesta imagem, vejo compreensão de que acima da distância, existe o respeito pelo espaço, a consciência da felicidade além dos sinais óbvios constantemente cobrados, causados pela necessidade incessante do ser humano de ter seu ego medido, avaliado, testado.
Ouça suas perguntas sem medo, responda as que você já sabe com consciência e pule as que você não sabe sem a menor cobrança de ter que saber de tudo.
terça-feira, agosto 08, 2006
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